José Gomes Ferreira (09/06/1900, Porto – 8/2/1985, Lisboa)
foi um escritor e poeta português.
Após a sua licenciatura em Direito na Universidade de
Lisboa, em 1924, foi cônsul de Portugal em Kristiansund, na Noruega, entre 1925
e 1929.
Em 1918 e 1921, José Gomes Ferreira publicou dois livros de
poemas, Lírios do Monte e Longe, que ficariam esquecidos depois
que se deu o encontro do poeta com a sua própria voz.
Esse momento epifânico só chegaria em 1931, como recorda em A
Memória das Palavras, 1965, quando escreveu o poema, ainda hoje um dos seus
mais conhecidos, «Viver sempre também cansa», que a revista Presença
havia de dar a público nesse mesmo ano.
Publicação dos Volumes de Poesia
Passariam, no entanto, dezassete anos até à publicação do
primeiro volume de Poesia. Em 1975, viria a lume o sexto volume. Os Poemas
Completos publicados, na 2ª metade da década de 10, em três volumes, sob o
título Poeta Militante, recolhem a produção incluída nos seis volumes de
Poesia e duas coletâneas inéditas, Viagem do Outro Lado, 1975, e Circunstanciais,
1975-1977.
O título escolhido para a referida edição da «Obra
Poética Completa» já tinha sido considerado quando José Gomes Ferreira
estava a organizar Poesia — I, em 1947. Havia, no entanto, de pô-lo de
parte, como explica nas memórias, pelo receio de que não fossem devidamente
entendidas as suas intenções.
Para Gomes Ferreira, o adjetivo «militante» significava
«militante da poesia total», mas o leitor, em face das condições então vigentes
em Portugal, não podia deixar de dar à palavra conotações que o poeta, embora
profundamente imerso nas circunstâncias históricas do País, queria de todo
evitar.
José Gomes Ferreira após o 25 de abril
Após o 25 de Abril, num Portugal restituído à liberdade,
pôde retomar a ideia dos anos 40, pois já não haveria lugar para
mal-entendidos. Deve, por outro lado, chamar-se a atenção para o subtítulo que
acompanha os três volumes de Poeta Militante: «Viagens do Século Vinte em
Mim», o que é muito diferente, como o interesse do poeta pelos grandes
acontecimentos poderia levar a supor, de «A Minha Viagem no Século Vinte».
O subtítulo escolhido aponta para uma experiência pessoal, para uma atitude lírica,
em suma, para a subjetividade em que, inevitavelmente, se fundamenta a resposta
do poeta à História.
Do mesmo modo, as epígrafes que precedem a maioria dos
poemas, e se referem quer às grandes convulsões do nosso século quer à luta
pela liberdade durante os 48 anos de regime autoritário em Portugal, não são
mais do que um ponto de partida. Só muito raramente os poemas funcionam como
ilustração dos acontecimentos que terão agido como seu estímulo imediato. A
breve nota que abre o 1.° volume de Poeta Militante, deixa, aliás, bem
claro que as reações do poeta têm mais a ver com «As coisas vulgares do
quotidiano nos cafés, nas ruas, nas praias, no campo, do que com os
acontecimentos merecedores no futuro de longos tratados de estudo».
A tríade autor, encenador e ator
Carlos de Oliveira fez, um dia, a leitura da poesia de José
Gomes Ferreira em função da tríade «autor, encenador e ator», e não é difícil
perceber o que aquele escritor tinha em mente ao fazer tal proposta. Temos, com
efeito, a impressão, ao ler Poeta Militante, de que a persona que
nos fala, e nos faz partilhar da sua indignação, das suas denúncias das injustiças
do mundo, se encontra num palco, gritando e gesticulando, apaixonadamente
entregue à representação de uma peça em que é, simultaneamente, o herói, ou «anti-herói»,
como o próprio José Gomes Ferreira preferiria, o autor e o encenador.
De acordo com a teoria do poeta militante, tal como é
exposta nas memórias, Gomes Ferreira vê-se como «um misto de cavaleiro andante,
profeta, jogral, vate, bardo, jornalista». Mas a ironia é também um ingrediente
fundamental na sua prática poética. A presença de uma persona nos seus
poemas é algo que o leitor, ainda que fascinado pelo virtuosismo do
«encenador», jamais esquece. Ao mesmo tempo que acompanha a indignação da persona,
e o seu sentido de espanto em face do mistério e das contradições da
existência, ele está perfeitamente consciente da realidade verbal que um poema
é.
Não obstante a sua declarada atração pela poética empenhada
do neorrealismo e da qualidade visionária próxima do surrealismo que distingue
muitos dos seus poemas, José Gomes Ferreira ainda acusa o influxo do
saudosismo*, do que nele aponta para a materialização do espiritual e para a
espiritualização do material.
Esta dialética da realidade e da irrealidade, de que também se encontram reflexos nos seus livros de «histórias», «vagabundagens» e «invenções», alarga-se a um outro tema que domina a poesia de José Gomes Ferreira: o conflito, dentro da persona, entre as suas tendências individualistas e a necessidade de partilhar o sofrimento e o drama dos outros homens.
Obra de José Gomes Ferreira
Poesia
- Lírios do Monte (1918)
- Longe (1921)
- Marchas, Danças e Canções (colaboração) (1946)
- Poesia I (1948)
- Homenagem Poética a Gomes L
- Poesia III (1962)
- Poesia IV (1970)
- Poesia V (1973)
- Poeta Militante I, II e III (1978), com prefácio de Mário querias Dionísio
- Viver sempre também cansa!
Ficção
- O Mundo Desabitado (1960)
- O Mundo dos Outros - histórias e vagabundagens (1950), com prefácio de Mário Dionísio
- Os segredos de Lisboa (1962)
- O Irreal Quotidiano - histórias e invenções (1971)
- Gaveta de Nuvens - tarefas e tentames literários (1975)
- O sabor das Trevas - Romance-alegoria (1976)
- Coleccionador de Absurdos (1978)
- Caprichos Teatrais (1978)
- O Enigma da Árvore Enamorada - Divertimento em forma de Novela quase Policial (1980)
Crónicas
- Revolução Necessária (1975)
- Intervenção Sonâmbula (1977)
- Memórias e Diários
- A Memória das Palavras - ou o gosto de falar de mim (1965)
- Imitação dos Dias - Diário Inventado (1966)
- Relatório de Sombras - ou a Memória das Palavras II (1980)
- Passos Efémeros - Dias Comuns I (1990)
- Dias Comuns
Contos
- Contos (1958)
- Tempo Escandinavo (1969)
- Literatura Infantil
- Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo (1963)
- Ensaios e Estudos
- Guilherme Braga (colaboração na Perspectiva da Literatura Portuguesa do século XIX) (1948)
- Líricas (colaboração) (1950)
- Folhas Caídas de Almeida Garrett (introdução) (1955)
- Contos Tradicionais Portugueses (colaboração na escolha e comentação; prefácio) (1958)
- A Poesia de José Fernandes Fafe (1963)
- Situação da Arte (colaboração) (1968)
- Vietnam (os escritores tomam posição) (colaboração) (1968)
- José Régio (colaboração no In Memorium de José Régio) (1970)
- A Filha do Arcediago de Camilo Castelo Branco (nota preliminar) (1971)
- Lisboa na Moderna Pintura Portuguesa (colaboração) (1971)
- Uma Inútil Nota Preambular de Aquilino Ribeiro (introdução a Um Escritor confessa-se) (1972)
Traduções
- A Casa de Bernarda Alba de Frederico Garcia Lorca (colaboração)
- O Livro das Mil e Uma Noites (1926)
- Discografia
- Poesia (1969, Philips, série Poesia Portuguesa)
- Poesia IV (1971, Philips, série Poesia Portuguesa)
- Poesia V (1973, Decca / Valentim de Carvalho, série A Voz e o Texto)
- Entrevista 12 - José Gomes Ferreira (1973, Guilda da Música/Sassetti, série Disco Falado)
- Parece impossível mas sou uma Nuvem

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